Buscando estar sempre conectado com as notícias relacionadas e de interesse dos portadores de mutação no gene RYR1, mais especificamente a Miopatia Congênita Centronuclear, que se trata da doença que me acomete, tomei conhecimento da recente pré-publicação científica, intitulada, “O Propofol liga-se diretamente e inibe o receptor 1 de rianodina do músculo esquelético (RYR1)”, versão postada em 12 de janeiro de 2024, na qual os pesquisadores, Thomas T. Joseph, MD, PhD¹,  Weiming Bu, PhD¹, Omid Haji-Ghassemi, PhD², Yu Seby Chen, PhD², Kellie Woll, PhD², Paul D. Allen, MD, PhD⁴, Grace Brannigan, PhD³, Filip Van Petegem, PhD², Roderic G. Eckenhoff, MD¹, através de resultados obtidos em estudos e ensaios sugerem em seus relatos que o propofol, um agente anestésico intravenoso de curta ação, em concentrações clínicas, se liga ao receptor de rianodina tipo 1 (RYR1), inibindo sua abertura, podendo assim, prevenir as manifestações clínicas da Hipertermia Maligna (HM), mesmo com exposição a agentes desencadeantes como os anestésicos voláteis.

Confira a integra da publicação pelo seguinte link: https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2024.01.10.575040v1.full

O receptor de rianodina tipo 1 (RYR1) desempenha um papel central na determinação de quando (tempo), e quanta (quantidade) força é produzida pelos músculos esqueléticos, que é necessária e essencial para movimentação do corpo e atividades físicas diárias dos indivíduos. Como principal canal de liberação de íon de cálcio (Ca²) no retículo sarcoplasmático do músculo esquelético, a mutação genética no receptor de rianodina tipo 1 (RYR1), tem a ela subjacentes, algumas doenças ou distúrbios musculares, tais como a Miopatia Centronuclear, Miopatia Central Core, Miopatia Multi-Minicore, Desproporção Congênita do Tipo de Fibra, incluindo distúrbios como a Rabdomiólise por Esforço, e a Hipertermia Maligna (HM).

Em pacientes com a mutação no gene RYR1, “a crise” de Hipertermia Maligna, causada pela exposição a algumas drogas desencadeantes, como os anestésicos voláteis halogenados, pode direcionar o RYR1 a deixar o canal de rianodina em um estado aberto, resultando em uma liberação descontrolada de Ca²⁺, acarretando em tensão no sarcômero, e consequente produção de calor. A restauração de Ca²⁺ no retículo sarcoplasmático também consome ATP (adenosina trifosfato), molécula responsável pelo depósito de energia celular, gerando também por consequência uma carga metabólica adicional insustentável.

Ao anestesiar pacientes com mutações genéticas conhecidas pela suscetibilidade a Hipertermia Maligna, o anestésico geral intravenoso não desencadeante propofol é comumente substituído por anestésicos desencadeantes. As evidências de ligação direta de agentes anestésicos ao RYR1 ou seus parceiros de ligação são escassas, e as interações em nível atômico do propofol com o RYR1 são totalmente desconhecidas. Os pesquisadores mostram no trabalho acima descrito que o propofol diminui a abertura do receptor do canal de rianodina (RYR1) com vesículas no retículo sarcoplasmático e bicamadas lipídicas planas, e que inibe a liberação de Ca²⁺ induzida por ativador do retículo sarcoplasmático no músculo esquelético humano. Além de confirmar a ligação direta, a marcação por fotoafinidade usando m-azipropofol (AziPm) revelou vários supostos locais de ligação de propofol no RYR1. A projeção pela simulação dinâmica da afinidade de ligação molecular sugere que o propofol se liga a pelo menos um destes locais em concentrações clínicas. Esses achados convidam à hipótese de que, além de o propofol não desencadear a Hipertermia Maligna, ele também pode ser protetor contra a Hipertermia Maligna, inibindo o fluxo induzido de Ca²⁺ através do canal de rianodina - RYR1.

¹ Department of Anesthesiology and Critical Care, Perelman School of Medicine, University of Pennsylvania, Philadelphia, PA USA; ² Department of Biochemistry, University of British Columbia, Vancouver, BC, Canada; ³ Department of Physics and Center for Computational and Integrative Biology, Rutgers University, Camden, NJ USA; ⁴ Department of Anesthesiology, University of Tennesee, Knoxville, TN USA

O artigo acima mencionado foi publicado na bioRxiv, repositório aberto de pré-publicação direcionado as ciências biológicas (https://www.biorxiv.org/), e hospedado pelo Cold Spring Harbor Laboratory (CSHL).

As doenças relacionadas ao RYR1 são identificadas com base em sua classificação histopatológica, isto é, pela aparência da biópsia do músculo na lâmina do microscópio. A diferenciação encontrada na biópsia designará o tipo da doença, se é por exemplo, Miopatia Central Core, Miopatia Multiminicore, Miopatia Centronuclear, ou Desproporção Congênita de Tipos de Fibras.

A Miopatia Congênita Centronuclear (MCCN) e a Miopatia Central Core (MCC) são ambas doenças musculares hereditárias causadas por mutações genéticas. A MCCN pode estar associada a mutações em diferentes genes, no DNM2, BIN1, MTM1, e RYR1, já a MCC está associada somente ao gene RYR1. 

Esses tipos de doenças relacionadas ao RYR1 variam amplamente em termos dos seus diferentes sinais e sintomas, de quando eles inicialmente se apresentaram, além da sua respectiva gravidade. Embora sejam altamente variáveis, os sintomas presentes também dependem se a mutação do gene RYR1 é autossômica dominante ou autossômica recessiva.

Uma pergunta que sempre chega até mim é sobre as diferenças entre a Miopatia Centronuclear e a Miopatia Central Core. Assim, eu, enquanto portador da Miopatia Congênita Centronuclear (MCN), buscarei esclarecer pontualmente neste texto, me atendo ao tipo que me acomete, que é a pela mutação no gene RYR1. 

Estas doenças apesar de terem sintomas parecidos e compartilharem de algumas características clínicas em comum, se confundem entre si, e apresentam com algumas diferenças distintas:

Miopatia Congênita Centronuclear (MCCN)

Miopatia Central Core (MCC)

Em resumo, a Miopatia Congênita Centronuclear e a Miopatia Central Core, ambas doenças relacionada ao RYR1, têm seus sintomas e sinais físicos que podem se parecer, podem se confundir, mas são diferentes, a contar da análise histológica das células musculares em uma biópsia, exame este que é crucial para diferenciar entre as duas condições e determinar o diagnóstico correto, conduta médica, tratamento, e até prognóstico de evolução.

Nota: todo o material escrito nesta página é oriundo de pesquisa científica, e conclusões próprias do autor deste website, que convive como portador, desde o nascimento, com a Miopatia Congênita Centronuclear causada pela mutação no gene RYR-1

As miopatias são doenças que afetam os músculos, e podem se apresentar desde o nascimento até a idade adulta. Quando a miopatia se manifesta no início da vida, é frequentemente referida como miopatia congênita e de origem genética.

O diagnóstico de miopatia em uma criança geralmente envolve uma combinação de exame físico, história clínica, testes laboratoriais, incluindo biópsia e exame genético, além de exames de imagem. O diagnóstico preciso depende da avaliação completa feita por um médico especialista em doenças neuromusculares pediátricas. 

Existem alguns sinais físicos que são característicos em uma criança portadora de miopatia. Além do Movimento de Gowers, já descrito nesta website,  o Sinal de Trendelenburg e a Marcha Miopática também são sinais físicos que podem ser cruciais no exame clínico quando do diagnóstico de uma miopatia. Esses sinais são incorporados como característica da doença, podendo ter um impacto significativo na qualidade de vida de quem a sofre, portanto, o acompanhamento e tratamento adequados são essenciais para ajudar os indivíduos a controlar os sintomas, limitações, evitar complicações secundárias, e manter uma boa qualidade de vida.

A Marcha Miopática é um termo médico usado para descrever um padrão de caminhada que é afetado pela fraqueza muscular causada por uma miopatia, que também é conhecida como Marcha do Pato. Essa condição provoca uma série de alterações na maneira de andar dos indivíduos afetados. Um dos sintomas mais característicos é também chamado de marcha bamboleante. Esta marcha é caracterizada pelo balanço do tronco e separação dos pés durante a caminhada. Como os músculos do tronco também são afetados, desencadeia-se uma postura anormal, apresentando como exemplo a hiperlordose lombar, que é uma curvatura excessiva na região lombar. Outra característica distintiva é andar na ponta dos pés, que provoca o espessamento e retração da musculatura posterior da perna, criando uma aparência de pseudo-hipertrofia. Nesta condição, os músculos tornam-se mais espessos e volumosos, mas na verdade é resultado da destruição da fibra muscular e da sua substituição por tecido fibroso ou fibras colágenas. Este padrão de marcha é uma característica comum em várias formas de miopatia e pode variar em gravidade dependendo do tipo e da progressão da doença.

O Sinal de Trendelenburg é uma característica bem comum em indivíduos afetados por uma miopatia, com fraqueza da musculatura abdutora do quadril, em especial o glúteo médio. O nome deste sinal é em homenagem ao cirurgião alemão Friedrich Trendelenburg. O sinal de Trendelenburg é positivo se, quando o quadril de um paciente que está de pé sustentado por somente uma perna, cai para o lado da perna levantada. A fraqueza é presente no lado da perna em contato com o chão. O corpo não é capaz de manter a perna estável, causando uma inclinação ou queda da pelve em comparação com o lado contralateral. Essencialmente, o Sinal de Trendelenburg é causado pela fraqueza dos músculos glúteo médio e mínimo.

O Sinal de Trendelenburg e a Marcha Miopática, apesar de poderem variar dependendo da miopatia, e da forma que ela se apresenta em cada indivíduo, ao longo do tempo, podem desencadear uma série de consequências no corpo (ufa ! …e eu que o diga…), podendo relacionar algumas delas:

Nota: todo o material escrito nesta página é oriundo de pesquisa científica, e conclusões próprias do autor deste website, que convive como portador, desde o nascimento, com a Miopatia Congênita Centronuclear causada pela mutação no gene RYR-1

ARMGO PHARMA PÚBLICA IMPORTANTES E POSITIVOS RESULTADOS DO ENSAIO DE FASE 1B DO RYCALl® ARM210 PARA O TRATAMENTO DE MIOPATIAS RELACIONADAS AO RECEPTOR DE RIANODINA 1

ARMGO Pharma, Inc. (ARMGO), uma empresa privada no setor biofarmacêutico que desenvolve uma nova classe de drogas de moléculas pequenas ou micro moléculas conhecidas como Rycals®, anunciou em 29 de janeiro de 2024 a publicação dos resultados de um estudo de Fase 1b de seu Rycal ARM210 (também conhecido como S48168), para o tratamento de miopatias relacionadas ao receptor 1 de Ryanodina (RYR1-RM), uma doença muscular órfã, também chamada de “doença rara”, por ser uma doença que afeta uma pequena percentagem da população.

Os dados foram publicados em um artigo intitulado 'Rycal S48168 (ARM210) para Miopatias Relacionadas ao RYR1: um ensaio de fase um, estudo em aberto, e de ensaio de escalonamento de dose', de autoria do Dr. Joshua Todd et al, no Journal eClinicalMedicine, parte da família de publicações Lancet. O artigo revisa os dados do estudo de Fase 1b do ARM210 e seu novo mecanismo de ação alostérico (MoA) visando a causa raiz da doença relacionada ao RYR-1 (RYR1-RM): mutação do Receptor 1 de Ryanodina (RYR1).

O gene RYR1 que codifica o Receptor 1 de Ryanodina RYR1, um canal intracelular de liberação de cálcio, vaza em doenças musculares. Vazamentos intracelulares de cálcio causados ​​por canais RYR1 com mutação prejudicam a contração muscular, levando à fraqueza muscular e perda de função, e ativam vias tóxicas que danificam os músculos, causando os sintomas das doenças relacionadas ao RYR1.

O ensaio de Fase 1b, aberto, de escalonamento de dose confirmou a segurança, tolerabilidade e farmacocinética da dosagem de 120 e 200 mg de ARM210 diariamente durante 29 dias em homens e mulheres adultos afetados pelas doenças relacionadas ao  RYR1 (RYR1-RM).

É importante ressaltar que o estudo também demonstrou eficácia preliminar no grupo de dose mais alta em dois sintomas característicos das doenças relacionadas ao  RYR1 (RYR1-RM): 1) alívio significativo da fadiga avaliada pelo sistema PROMIS-fatigue (Patient-Reported-Outcome Measurement Information System) t-scores, e 2) melhora da força dos proximais avaliada pelo exame físico de abdução do ombro (Medical Research Council Grading). Estes resultados justificam o desenvolvimento futuro do ARM210 como um potencial tratamento e modificador da doença para as miopatias relacionadas ao RYR1 (RYR1-RM) em um ensaio de Fase 2 randomizado e controlado por placebo.

O ensaio de Fase 1b concluído foi conduzido em colaboração com o National Institute of Neurological Disorders and Stroke (NINDS) e National Institute of Health (NIH) sob um Acordo Cooperativo de Pesquisa e Desenvolvimento (CRADA - Cooperative Research and Development Agreement ), com o apoio da Fundação RYR-1, Pittsburgh, PA, EUA.

(Foto esquerda para direita: Dr. Tokunbor Lawal (autor da publicação), Dr. Mike Goldberg (co-fundador/Co-presidente de Pesquisas da Fundação RYR-1), e Dr. Payam Mohassel (Pesquisador Principal e Autor Senior)).

“Estamos muito satisfeitos com os resultados do ensaio com as doenças relacionadas ao RYR1 (RYR1-RM) conduzido em conjunto com o NIH, pois o estudo confirmou a segurança e tolerabilidade do ARM210, mas o mais importante, demonstrou pela primeira vez que o nosso Rycal®, ARM210, pode reverter os sintomas desta doença muscular crônica e devastadora em um curto período de tratamento. Isso é muito promissor”, disse Gene Marcantonio, M.D., Ph.D., CEO da ARMGO Pharma. “Esperamos, portanto, continuar rapidamente no desenvolvimento do ARM210 para levar este primeiro e potencial tratamento aos pacientes com as doenças relacionadas ao RYR1, com o apoio da Fundação RYR-1 e da comunidade de pacientes.”

Michael F. Goldberg, MD, MPH, co-presidente de pesquisa da Fundação RYR-1 acrescentou: “Estamos entusiasmados com a publicação deste importante estudo, pois representa um farol de esperança para muitos indivíduos e famílias de todo o mundo afetados pelas doenças relacionadas ao RYR1. Estamos ansiosos pelas próximas etapas de ensaios no desenvolvimento dessa importante droga.”

Mais informações sobre este estudo de Fase 1b podem ser encontradas online em: https://clinicaltrials.gov/study/NCT04141670. O ensaio foi apoiado pelos Programas de Pesquisa Intramural do NIH/NINDS, NIH/NINR, um NIH Clinical Center Bench to Bedside Award (2017-551673) e pelo parceiro de colaboração anterior da ARMGO, Les Laboratoires Servier. O conteúdo é de responsabilidade exclusiva dos autores e não representa necessariamente a opinião oficial dos Institutos Nacionais de Saúde.

 

BREVE REVISÃO SOBRE A FUNÇÃO DO RYR1 E DOENÇAS RELACIONADAS

Os RYRs são canais homotetraméricos de liberação de cálcio intracelular responsáveis ​​pelo fluxo de Ca2+ dos retículos sarcoplasmáticos/endoplasmáticos (RS/RE) para o citoplasma da maioria dos tipos de células. RYR1 é a isoforma predominante no músculo esquelético de mamíferos, onde a liberação de Ca2+ via RYR1 é necessária para o acoplamento excitação-contração e função muscular normal. Já o RYR2 é a isoforma predominante no músculo cardíaco onde a liberação de Ca2+ via RYR2 é necessária para a função normal do músculo cardíaco. Mutações genéticas humanas nos genes RYR1 e RYR2 fazem com que o cálcio vaze dos canais RYR, levando à doença (Figura 1).

Os canais RYR normalmente alternam entre um estado de repouso (fechado) e excitado (aberto). Em certas doenças, em que existe a mutação genética, o RYR é modificado e torna-se incontinente ou seja, fica vazando. No caso do RYR1, este desempenha um papel crítico no músculo esquelético, e as mutações do RYR1 em humanos levam a uma miopatia progressiva, conhecida como doenças relacionadas ao RYR1 (RYR1-RM), privando o músculo da capacidade de responder eficazmente aos sinais de contração, levando à fraqueza muscular.

Sobre o Rycals® - A inibição do canal interromperia o vazamento, mas esta intervenção geralmente não seria benéfica, uma vez que bloquearia a função normal do RYR. O Rycals®, são moléculas que podem restaurar a função normal do canal sem bloquear o RYR, e abrem a possibilidade de intervenções terapêuticas.

Figura 1: Modelo da função do RYR. O RYR controla o fluxo de cálcio (Ca2+) de dentro do retículo sarcoplasmático (RS) através da membrana até o citoplasma. (Quadro Esquerdo) O RYR normal regula o fluxo de cálcio alternando entre um estado fechado e aberto. (Quadro Meio) Na RYR1-RM, o RYR mutado apresenta vazamento, levando ao fluxo anormal de cálcio, resultando em sintomas da doença. Modificações pós-traducionais* (MPTs) do RYR agravam ainda mais o vazamento. Em outros distúrbios musculares, como DMD, insuficiência cardíaca ou sarcopenia, as modificações pós-traducionais (MPTs) do RYR podem causar vazamento no canal, levando a um fluxo anormal de cálcio, resultando em sintomas da doença. (Quadro Direito) Rycals® liga-se aos canais incontinentes (com vazamento) e repara o vazamento independentemente da causa do vazamento, restaurando a função normal do canal. O Rycals® não bloqueia o RYR.

*As modificações pós-traducionais (MPTs) são modificações químicas e estruturais de uma cadeia proteica após a sua tradução. Estas modificações podem determinar a atividade, a localização e interações com outras proteínas.

As doenças relacionadas ao RYR-1 são um grupo de doenças genéticas nas quais os músculos não funcionam corretamente. Em geral, as pessoas com essas doenças sofrem de fraqueza muscular ou baixo tônus muscular. Essas doenças podem causar diversos sintomas, que variam de fraqueza leve a fraqueza severa (em alguns casos, podendo ser necessário o uso de cadeira de rodas e de suporte respiratório).

A fraqueza muscular, fadiga muscular e astenia são sintomas comuns na maioria das formas das miopatias relacionadas ao RYR-1, e podem se sobrepor e / ou se confundirem entre si, o que pode tornar difícil distinguir entre eles apenas com base nos sintomas. Todos esses sintomas podem estar presentes em diferentes níveis de intensidade em pessoas com os diferentes tipos de miopatias, mas podem variar dependendo do tipo específico de miopatia, da sua gravidade, mas também de indivíduo para indivíduo. O diagnóstico preciso geralmente requer avaliação médica e, às vezes, e exames adicionais. Neste sentido, é muito importante destacar que a fraqueza muscular nas miopatias relacionadas ao RYR-1 pode ser acompanhada ou mesmo se confundir com outros sintomas, dentre eles a fadiga muscular, e astenia.

A FRAQUEZA MUSCULAR é um sintoma central e característico, resultando em fraqueza e redução da capacidade de mover os membros ou realizar atividades físicas. A fraqueza muscular na miopatia pode variar de leve a grave, dependendo do tipo e gravidade da doença. Ela pode afetar músculos específicos ou grupos musculares mais amplos, impactando as atividades diárias e a qualidade de vida do paciente. O tratamento da miopatia visa gerenciar os sintomas, retardar a progressão da doença e melhorar a função muscular, muitas vezes envolvendo uma combinação de medicamentos, terapia física e outras intervenções médicas específicas para cada caso.

A FADIGA MUSCULAR pode ser um sintoma significativo, pois pode ocorrer devido à disfunção dos músculos enfraquecidos, tornando-os menos eficientes na realização de atividades cotidianas. Isso pode levar a uma sensação de cansaço ou fadiga durante ou após o uso dos músculos afetados. O tratamento da miopatia muitas vezes envolve uma abordagem multidisciplinar, incluindo medicamentos, fisioterapia e gerenciamento dos sintomas para ajudar a minimizar a fadiga muscular e melhorar a qualidade de vida do paciente.

A ASTENIA, que é a sensação de fraqueza geral e falta de energia, pode ser um sintoma comum na miopatia. A fraqueza muscular decorrente da miopatia pode contribuir para essa sensação de astenia, levando a uma diminuição da capacidade de realizar atividades físicas e uma sensação geral de cansaço e exaustão. A astenia pode afetar significativamente a qualidade de vida dos pacientes com miopatia, limitando suas atividades diárias e impactando seu bem-estar emocional e mental. É importante que os pacientes com miopatia recebam um tratamento abrangente que leve em consideração não apenas a fraqueza muscular, mas também a astenia e outros sintomas associados, visando melhorar sua qualidade de vida geral.

Em recente postagem na página do SorRYR-1 no Instagram (@sorryr_1) em que me caracterizei com pequenas frases, fui muito questionado sobre um termo utilizado nos EUA, #ambulatorywheelchairuser, mas que aqui no Brasil ainda não é muito conhecido, “Cadeirante Ambulatório”.

 

Indivíduos afetados por uma doença neuromuscular tem uma grande probabilidade de ter sua mobilidade limitada no decorrer do tempo, e essa situação pode evoluir de maneira gradativa ou repentinamente.

A maneira com que nós, pessoas com deficiência física (PCD), encaramos nossa situação e a forma que vivemos diante de nossas adversidades evoluíram muito nos últimos anos, assim como pela maneira que sociedade nos veem.

Para que essa evolução acontecesse alguns conceitos tiveram que ser inseridos   em nosso dia a dia, como por exemplo a inclusão social, acessibilidade, capacitismo, enfim, mas alguns termos também tiveram que ser lançados para nos caracterizar melhor diante da sociedade, como por exemplo, “Cadeirante Ambulatório”.

Cadeirante Ambulatório refere-se a pessoas com deficiência física ou doença crônica que usam cadeira de rodas, embora possam ter alguma capacidade de andar em circunstâncias limitadas e particulares. Há muitas razões pelas quais uma pessoa pode ser um cadeirante ambulatório, sendo a principal para melhorar sua liberdade e a qualidade de vida. Outro termo importante destacar neste momento é que existe o cadeirante ativo e cadeirante passivo, sendo que o primeiro  consegue por si mesmo tocar a rodas a cadeira de rodas, e o passivo depende outra pessoa.

Recentemente foi publicado um artigo médico-científico tratando sobre a Pancreatite em Indivíduos com Doenças Relacionadas ao RYR1. O estudo teve participação de pesquisadores do Reino Unido, Holanda e Estados Unidos, além do nobre apoio da Fundação RYR1.

Mutações no gene do receptor de rianodina do músculo esquelético (RYR1) são uma causa comum de doenças neuromusculares hereditárias e têm sido associadas a um amplo espectro de fenotípico, variando de várias miopatias congênitas de início precoce com fraqueza muitas vezes substancial, até fenótipos induzidos em indivíduos “normalmente fortes” tais como a Rabdomiólise por Esforço (ERM) e suscetibilidade aos efeitos relacionados à anestesia, como a Hipertermia Maligna (HM). O gene RYR1 codifica o principal canal de liberação de cálcio do retículo sarcoplasmático (SR) com um papel crucial

no acoplamento excitação-contração (ECC), processo pelo qual um impulso neuronal elétrico é traduzido em contração muscular por meio da liberação de cálcio intracelular, estimulando o filamento contrátil. Mutações no gene RYR1 associadas à fraqueza muscular permanente normalmente prejudicam o processo excitação-contração (ECC) de forma eficaz, enquanto aquelas associadas com ERM e MH resultam em um receptor RYR1 hiperexcitável e muitas vezes aumenta desproporcionalmente a liberação de cálcio. 

Os genes RYR1s foram implicados em processos essenciais de sinalização de cálcio em uma ampla gama de tecidos, mas as manifestações de doenças humanas associadas ao mau funcionamento do RYR1 em outros órgãos além do músculo esquelético até agora receberam pouca atenção. Descobriu-se que os genes RYR1s são amplamente expressos no pâncreas de mamíferos, através de seu papel nos processos de sinalização de cálcio intracelular, e têm sido criticamente implicados na função pancreática endócrina e exócrina. 

No estudo foi relatado três casos com características principais de um distúrbio relacionado ao RYR1 e uma história adicional de pancreatite (aguda) inexplicável, sugerindo uma nova associação clínica de função perturbada do RYR1 não relacionada ao músculo estriado. Os três pacientes com diagnóstico de Miopatia Central Core (CCD), Síndrome de King-Denborough (KDS) e Suscetibilidade à Hipertermia Maligna (MHS), respectivamente, que além de seu (suposto) distúrbio relacionado ao RYR1 também desenvolveram sintomas e sinais de pancreatite aguda. Em dois pacientes, os episódios foram recorrentes, com grave envolvimento multissistêmico e sequelas. A sinalização de cálcio mediada por RYR1 desempenha um papel importante na função pancreática normal, mas também tem sido criticamente implicada na fisiopatologia da pancreatite aguda, particularmente nas formas induzidas por ácidos biliares e etanol. Os resultados de modelos animais relevantes indicam que os danos pancreáticos nestas condições podem ser melhorados através da administração do antagonista específico de RYR1, dantroleno, e de outros compostos que modificam o metabolismo pancreático, incluindo a sinalização de cálcio. Estas observações sugerem que os pacientes com variantes de ganho de função do RYR1 podem ter um risco aumentado de desenvolver pancreatite aguda, uma condição que deve, portanto, ser considerada na vigilância da saúde desses indivíduos. 

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A terapia genética que era tida como uma futura grande promessa para o tratamento de miopatias relacionadas ao RYR1, se torna uma realidade com a publicação do recente relato científico da primeira correção por Edição Prime de uma mutação no gene RYR1.

A Fundação RYR-1 (https://ryr1.org/) cumprimentou a todos no início de ano com um “Feliz 2024, mas também compartilhou a informação que financiou uma pesquisa incrivelmente importante com o Dr. Jacques P. Tremblay, um pesquisador na Universidade Laval em Quebec. As descobertas e resultados dos trabalhos de pesquisa acabaram de ser publicadas em um novo artigo de pesquisa (https://www.mdpi.com/2073-4409/13/1/31#). E o resultado é ainda mais emocionante, pois os pesquisadores utilizaram com sucesso a Edição Prime, uma forma de edição genética, que foi utilizada para corrigir uma mutação no gene RYR1 nas células musculares esqueléticas. Esta pesquisa fornece "prova de conceito" para a edição de genes como sendo uma estratégia em potencial para tratar miopatias relacionadas com RYR-1, que atualmente carecem de terapias eficazes.  Segundo o cientista, "estes resultados são as primeiras demonstrações de que é possível corrigir mutações no gene RYR-1"

 

O gene RYR1 codifica um canal de cálcio denominado receptor 1 de Ryanodina, apresentada nas fibras musculares esqueléticas. A falha desse canal causa fraqueza muscular, que degenera acarretando deficiências motoras no indivíduo afetado. Atualmente, não existem tratamentos eficazes para estas miopatias, também conhecidas como doenças relacionadas ao RYR1, que são causadas principalmente por mutações pontuais. A Edição Prime permite a modificação precisa de nucleotídeos no DNA. Os resultados dos trabalhos de pesquisa pelos cientistas Kelly Godbout, Joël Rousseau e Jacques P. Tremblay, demostraram uma taxa de correção de 59% da mutação T4709M no gene RYR1 em mioblastos humanos pela entrega de RNA dos componentes de Edição Prime. Deve-se notar que o T4709M é recessivo e, portanto, as pessoas com mutação heterozigótica são saudáveis. Estes resultados são a primeira demonstração de que é possível corrigir mutações no gene RYR1.

A tecnologia de Edição Prime pode ser usada para corrigir mutações que causam miopatias relacionadas ao RYR1. Este grupo de doenças inclui a Hipertermia Maligna (HM), Miopatia Central Core (CCD), Miopaty Multi-Minicore (MmD), Miopatia Centronuclear (CNM), Desproporção Congênita do Tipo de Fibra (CFTD) e Rabdomiólise por Esforço (ERM). Até o momento, mais de 700 variantes no gene RYR1 foram identificadas. Este gene que codifica uma proteína chamada "receptor de rianodina 1" (RyR1), é o principal canal de cálcio no retículo sarcoplasmático (SR) nas fibras musculares esqueléticas. A disfunção desta proteína afeta o fluxo de cálcio para os músculos. A posição da mutação não afetará ou impactará na proteína, mas as mutações nos genes farão com que ocorra principalmente a um vazamento de cálcio. E como o cálcio é fundamental para a contração muscular, essa desregulação do RYR1 leva à fraqueza muscular, caibras, exaustão, intolerância ao calor, dificuldades respiratórias e até mesmo à reação maligna de hipertermia, ou Hipertermia Maligna. Essas miopatias, portanto, afetam gravemente a qualidade de vida dos pacientes. A proteína RYR1 tem variações funcionais limitadas, e o gene RYR1 é um dos mais intolerantes a variações de sequência no genoma humano.

Até o momento, não existe tratamento eficaz para essas doenças relacionadas ao RYR1. Como muitas mutações nos genes RYR1 são mutações pontuais, os resultados descritos no referido artigo demonstram claramente que a Edição Prime pode ser utilizada para corrigi-las, uma vez que pode substituir qualquer nucleotídeo do genoma.

O referido artigo relata a correção de uma dessas mutações (isto é, a T4709M) como exemplo. Esta mutação específica foi selecionada porque existe um modelo de camundongo (RYR1TM/Indel) com essa mutação que desenvolve sintomas claros. Confira o artigo científico no link -> https://www.mdpi.com/2073-4409/13/1/31#

 

TERAPIA GENÉTICA 

A terapia genética é uma grande promessa para o tratamento de doenças genéticas, uma vez que aborda diretamente a raiz do problema. Ao corrigir mutações, a terapia genética tem o potencial de curar milhares de doenças hereditárias.

A descoberta do CRISPR/Cas9 em 2012 foi um marco no desenvolvimento de terapias genéticas. O Crispr/Cas9 é uma espécie de "tesoura genética", que permite à ciência mudar parte do código genético de uma célula. Com essa "tesoura", é possível, por exemplo, "cortar" uma parte específica do DNA, fazendo com que a célula produza ou não determinadas proteínas.

Este sistema usa uma nuclease Cas9 que induz uma quebra da fita dupla do DNA em um local preciso do genoma. Cas9 é direcionado para a sequência do genoma desejada por um único RNA guia (sgRNA). Este sgRNA é um RNA de fita simples complementar a uma sequência de DNA. A proteína Cas9 forma um complexo com o sgRNA e se liga a um motivo adjacente no DNA, induzindo um corte. Após a quebra da cadeia dupla no local do desejado, a célula irá reparar este corte por Reparação Dirigida por Homologia (HDR) se for fornecida uma sequência doadora. No entanto, a percentagem de correção de uma mutação precisa de nucleótidos por HDR é demasiado baixa para ser utilizada no tratamento de doenças hereditárias in vivo . Se nenhuma sequência doadora for fornecida, a célula reparará o corte por junção final não homóloga (NHEJ) e produzirá indels. InDels (inserções e deleções) são adições ou perdas de uma ou mais bases consecutivas na sequência do DNA.

CRISPR/Cas9

Em outubro de 2019, o grupo de David R. Liu publicou uma técnica notável chamada PRIME EDITION. Este sistema pode realizar inserções, deleções direcionadas e todas as 12 conversões de base possíveis.

O Prime Edition ou sistema Edição Prime (em português), é um método de edição de genoma que grava diretamente novas informações genéticas em um local (endereço) de DNA especificado usando uma endonuclease Cas9 prejudicada cataliticamente e fundida com uma transcriptase reversa projetada, programada com um RNA de guia Prime Edition (pegRNA) que especifica o local de destino e codifica a edição desejada. Esta tecnologia realiza modificações no DNA com precisão sem precedentes e oferece vantagens substanciais sobre o sistema tradicional CRISPR/Cas9.

Prime Editing é mais complexo que a edição CRISPR. Ele pode excluir comprimentos longos de DNA causador de doença ou inserir DNA para reparar mutações perigosas, tudo sem desencadear as respostas caóticas (e possivelmente prejudiciais) do genoma introduzidas por outras formas de CRISPR.

Prime Edition

Em resumo, a técnica CRISPR-Cas9, popularmente utilizada para modificação genética pela comunidade científica, baseia-se na atividade nuclease da enzima Cas9 que corta as duas fitas de DNA, e utiliza a maquinaria de reparo de danos da própria célula. No entanto, o sistema de reparo pode inserir ou deletar letras de DNA, causando efeitos inesperados. Já a nova tecnologia “Prime Editing” ou Edição Prime utiliza uma versão enzima Cas9 que além de reconhecer sequências específicas de DNA, corta apenas uma das fitas da dupla-hélice. Dessa forma, a edição ocorre no local correto do corte através da ação de uma enzima transcriptase e uma fita de RNA guia (pegRNA).

Diante de uma doença, desenvolver uma rede de apoio, tendo pessoas ao seu redor que possam fornecer suporte, é fundamental e faz uma grande diferença na sua jornada desafiadora de enfrentamento e recuperação.

Emocionalmente, uma rede de apoio pode oferecer conforto e encorajamento, ajudando a reduzir o estresse e a ansiedade que muitas vezes acompanham uma pessoa que vive uma doença. Ter alguém com quem você possa desabafar, compartilhar as preocupações e medos, ou simplesmente ter alguém que possa ouvir pode ser algo sensivelmente reconfortante.

Além disso, uma rede de apoio também pode fornecer suporte prático, com a ajuda nas tarefas diárias, como cuidar da casa ou realizar atividades que a pessoa doente não consegue fazer sozinho. Ter alguém para ajudá-lo nessas tarefas pode aliviar parte do peso e permitir que você se concentre em sua recuperação.

Uma rede de apoio também pode ajudar o paciente a ter acesso a informações e recursos. Seus membros podem estar bem informados sobre a doença em questão, tratamentos disponíveis, especialistas médicos e outros recursos úteis. Eles podem ajudá-lo a entender melhor sua doença e fornecer orientações sobre os próximos passos a serem tomados.

A família desempenha um papel fundamental como rede de apoio durante momentos de doença. Quando um membro da família adoece, é natural que os outros membros se unam para oferecer suporte emocional, físico e prático. É importante lembrar que uma rede de apoio não precisa ser composta apenas por familiares. Amigos próximos, colegas de trabalho, grupos de apoio ou até mesmo profissionais de saúde podem fazer parte dessa rede essencial.

Desenvolver essa rede de apoio requer comunicação aberta e honesta. Compartilhe com as pessoas ao seu redor sobre sua situação e as necessidades específicas que você tem. Não tenha medo de pedir ajuda ou expressar suas emoções. As pessoas geralmente estão dispostas a ajudar, mas podem não saber como, a menos que você as informe.

Portanto, não subestime a importância de desenvolver uma rede de apoio durante uma doença. Essa rede pode ser uma fonte valiosa de apoio emocional, prático e informativo, ajudando você a enfrentar os desafios e a se recuperar mais rapidamente.

Por fim, escrever sobre se ter uma REDE DE APOIO a seu favor em meio a uma doença é um tema em que tenho propriedade como experiência durante toda minha vida, em que vivo afetado por uma doença chamada Miopatia Congênita Centronuclear, "doença rara", sem cura, nem tratamento, e com caracteristica de progressividade. Na esteira de importância de uma rede de apoio, poderia listar o alivio de estresse e a ansiedade, é sentir suportado, reconfortado, e compreendido, é sentir que não se está sozinho, e que junto com outras pessoas se sente mais forte e capaz de enfrentar qualquer desafio.

Meu nome é Orlando Alves Carneiro Junior, brasileiro, moro em Goiânia, estado de Goiás, Brasil. Minha história começa em 1963, ano em que que nasci, e em seguida contarei um pouco de mim com foco no meu histórico de saúde física, especificamente tratando sobre a Miopatia Congênita Centronuclear, doença que sou portador desde meu nascimento. Apesar de não ter sofrido complicações durante a gravidez da minha mãe, assim como nenhuma intercorrência com o meu parto, meu desenvolvimento físico foi marcado desde o início da minha vida pelos atrasos com as questões motoras e pela hipotonia já percebida no primeiro ano de vida.

 

Naquela época, meados da década de 60, meus pais, diante das limitações científicas e do pouco conhecimento médico disponível na cidade onde morava decidiram ir em busca de explicações sobre o que me afetava fisicamente.  Eu tinha 7 anos de idade quando então fomos para São Paulo em busca de um diagnóstico, na época um importante centro médico do país. Durante a consulta com Dr. Veras, tido como importante neurologista, ele pôde verificar que eu já apresentava questões preocupantes com meus marcos motores, dentre eles a manobra de Gowers, sinal de Trendelenburg, e dificuldade para subir degraus. Além dos testes, foi realizado uma biópsia muscular, constando sinais incomuns e inespecíficos nas fibras do tecido, diferentemente de uma célula muscular normal. No final, o especialista de posse de todos resultados, limitou-se a dizer que eu era portador de um potencial distúrbio neuromuscular inespecífico, mas nenhum tratamento foi indicado para ser realizado, a não ser acompanhar a eventual evolução da doença.

 

Em 1970 nasceu minha irmã, o que na época causou na família um misto de alegria pelo seu nascimento, mas preocupação porque ela já apresentava sinais claros da mesma doença inespecífica que me acometia. Meus pais, preocupados com a situação, decidiram levar a mim e minha irmã para consulta a um outro grande centro médico, desta vez para o departamento de estudos neurológicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá passamos por uma junta médica, e em complemento às informações reunidas quando de minha consulta anterior relatada, foram realizados outros exames clínicos, além de um eletromiograma. Desta vez o relatório médico foi dado a meus pais com a hipótese de diagnóstico clínico de que erámos portadores de Distrofia Muscular. O médico conversou com meus pais sobre as características e prognóstico da doença, recomendou a limitação de exercícios físicos para evitar a progressão da doença, e mais uma vez nada foi indicado como tratamento. Naquela época o pouco que se sabia sobre a distrofia muscular, era sobre a do tipo Duchenne, e que seu prognóstico tanto de evolução da doença, quanto de expectativa de vida não era nada animador. Diante de tudo isso, dá para se imaginar o estado emocional dos meus pais, mas pasmem, incrivelmente meus pais voltaram para Goiânia, e que ao contrário de abatidos, entendo que eles tomaram toda aquela carga de informações negativas para alimentarem em nós o espírito de resiliência e superação, para vivermos maximizando nossas capacidades e possibilidades, a despeito das dificuldades iriamos enfrentar no curso de nossas vidas.

 

Na minha infância e adolescência, considerando minhas dificuldades, e as diferenças nítidas que tive em relação às outras crianças, procurei ser sempre muito ativo fisicamente, busquei fazer “do meu modo” tudo que conseguia fazer, neste sentido, eu nadei, andei de bicicleta, enfim, brinquei muito. Fui criado de uma forma que não focava no que não podia fazer, mas no que queria e era capaz de fazer dentro da minha capacidade física. Neste período, com relação à doença, ao longo dos anos, experimentei um padrão de piora lenta, mas constante, como o aumento da dificuldade para subir escadas, levantar-me depois de sentado, caminhar, manter-me em equilíbrio, além dos eminentes riscos de quedas. Durante esse período da minha vida, tive muitas questões emocionais, pois sofri muito por às vezes me sentir diferente e inferior aos meus amigos, assim como por não conseguir acompanhá-los em suas atividades, contudo era imediatamente apoiada por eles e meus familiares. Só tendo a agradecer a Deus por tudo isso, porque segundo o psicólogo e pesquisador Holland, a personalidade é formada durante esta fase da infância e adolescência, e o resultado além de ter um peso da genética, é fruto das experiências nessa fase da vida e a influência de amigos, mas sobretudo das figuras parentais

 

As dificuldades que sempre enfrentei na vida, me fizeram desenvolver um instinto de resiliência, superação e busca por minha independência. No ano de 1983, com 19 anos, casei-me com Sissi, época que ainda cursava a faculdade, e em 1985, ao me graduar, nos mudamos para os EUA fazer meu MBA. Naquela época, casado, e planejando ter filhos, mas que diante das incertezas e falta de conhecimento sobre a doença que me acometia, ouvimos falar sobre o MDA - Associação de Distrofia Muscular, e lá fomos em busca de respostas e aconselhamento. Nos dirigimos a uma clínica conveniada ao MDA em Austin, Texas, cidade onde morávamos, e consultados pelo Dr. Jerry Tindel, após ter me submetido a uma bateria de exames, recebi a confirmação de diagnóstico de Distrofia Muscular, sugerindo naquele momento ser do tipo FSH -Facioscapulohumeral. O médico explicou sobre a doença e sua gravidade, prognóstico, e mediante um “aconselhamento genético”, sem que tenha sido feito teste genético, até porque na época isso não existia, disse sobre a probabilidade de ter um filho também afetado pela doença, e concluiu por dizer que dentro de alguns meses eu deveria estar em uma cadeira de rodas.

 

De volta ao Brasil a vida continuou e nos anos que se seguiram, décadas de 80 e 90, apesar de minhas dificuldades físicas terem aumentado, e não conseguir mais me levantar de uma cadeira e ter que usar uma bengala para equilíbrio e me apoiar durante minha caminhada, estava contrariando sobre que disse o médico do MDA, eu não usava cadeira de rodas. Neste período, estive muito envolvido com meus projetos profissionais e familiares, mas o acontecimento mais importante foi a benção de Deus de ter me tornado pai de dois filhos, Luciano e Priscila.  Luciano, meu filho mais velho, apesar de ter falecido aos 21 anos vítima de leucemia, causada por complicação de tratamento contra câncer, como prova de sua saúde física, era triatleta, e conquistou a medalha de bronze aos 20 anos no Mundial de Triatlo de Vancouver, no Canadá. Priscila, filha caçula é casada, médica oncologista, fisicamente normal, mas carrega a mutação no gene RYR-1.

 

No ano 2000, incomodado com a constante progressão e aumento da limitação física imposta pela doença, contudo não tão grave como disse o médico do MDA em 1985, por não sentir segurança nas hipóteses de diagnósticos recebidos até então, fui consultado pela equipe da Dra. Mayana Zatz, do Departamento de Genética Humana da USP - Universidade de São Paulo, em busca de ter um diagnóstico conclusivo e, consequentemente de um eventual tratamento, contudo, no final, mais uma vez voltei para casa sem uma resposta conclusiva.

 

No ano de 2007, tomei conhecimento sobre um médico, que me foi dito que seria no Brasil a porta de entrada de informações sobre o que estava acontecendo no mundo a nível de pesquisas acerca das doenças neuromusculares. Assim, fui de encontro para uma consulta com aquele médico no Ambulatório Público de Doenças Neuromusculares da UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo, conhecendo assim o Dr. Acary Bulle Oliveira, neurologista e chefe do setor daquela instituição. Na consulta, durante os exames clínicos, Dr. Acary, não titubeou por dizer que meu diagnostico não era de distrofia muscular, e propôs a fazer ali mesmo a coleta de material para uma biopsia. Corroborado pela referida biópsia muscular que mostrou alterações da rede intermiofibrilar típicas de Miopatia Congênita Centronuclear, e posteriormente com o resultado de exame genético e pesquisa mostrando alteração no gene RYR-1, com sequenciamento total do exoma, aquela consulta culminou finalmente, após 44 anos de espera, com o meu tão desejado diagnostico conclusivo sobre a doença que me afetava.

 

Dada a raridade da Miopatia Congênita Centronuclear, a minha idade e evolução da doença, em 2017 fui convidado pelo Dr. Carsten Bonnemann, MD., Investigador Sênior e Chefe do Distúrbio Neuromuscular e Neurogenético do NIH - National Institutes of Health, Bethesda , Maryland, EUA, para ser consultado e ter minhas informações como parte de uma pesquisa em desenvolvimento. Essa oportunidade foi muito impactante na minha vida, pois pela primeira vez tomei conhecimento de que havia outros individuos como eu, assim como outras pessoas que se interessavam pela doença e que já trabalhavam no desenvolvimento de pesquisas em busca de tratamento e até a cura da doença. Naquela oportunidade me foi apresentado também a Fundação RYR1, uma associação que visa reunir indivíduos afetados pela doença e seus familiares, pessoas estas de toda parte do mundo, visando levar o conhecimento e promover a troca de experiências, além de apoiar financeiramente cientistas e laboratórios que trabalham no desenvolvimento de medicamentos para tratamento e terapia genética curativa. Enfim, toda essa experiência me fez ver e prever algo que nunca havia pensado, que é a cura, ou pelo menos a existência de um medicamento para tratar ou amenizar os efeitos e problemas da Miopatia Congênita Centronuclear.

 

Concluindo este relato sobre a minha vida enquanto pessoa portadora de Miopatia Congênita Centronuclear, hoje com 60 anos (novembro de 2023), resumiria tudo fazendo algumas pontuações: primeiro, nunca questionei a Deus, e a ninguem sobre o porquê de ter nascido com essa doença, porque tenho comigo a resposta de Jesus em João 9:3 em que Ele disse, "ninguem errou para que tenha nascido com essa deficiência, mas foi assim para que se manifestem em mim as obras de Deus", e talvez seja este meu testemunho de vida e razão de viver;  segundo, com relação as questões fisicas, diria que apesar da evolução da doença, a prática de atividade física, ou o movimentar revela-se essencial e único tratamento na prevenção do agravamento da doença e manutenção da qualidade de vida, parafrazeando o Dr. Acary, "o RYR-1 é movimento"; e por último, e como já disse anteriormente em outra postagem, pode parecer irônico, mas quando deu nome a este site de SorRYR-1, rementendo o "Sorrir" a minha miopatia relacionada à mutação no gene RYR-1, quero me referir a levar a vida com leveza, focando no positivo, desprezando as impossibilidades e limitações que me são impostas, além de exercitar e potencializar as possibilidades que tenho, superando assim meus limites.

Me chamo Lise, e sou mãe de um menino de 10 anos, João Miguel, diagnosticado com a Mutação do Gene Ryrr.1 Central Core. Moramos na cidade de Criciúma no Estado de Santa Catarina, Brasil. Eu e meu esposo esperamos o João por sete anos, e seu nascimento trouxe alegria a nossa casa.

O João nasceu com um pezinho torto congênito, e nos seus primeiros dias de vida passou a usar gesso até os 11 meses de idade, como também foram feitas duas cirurgias para concluir a correção do pé. O João começou a engatinhar com um ano e três meses e caminhar com um ano e nove meses, achávamos que esse atraso motor era pelo tempo que ele passou em recuperação do pezinho.

Aos três anos percebemos as quedas constantes e levamos esta nossa preocupação ao ortopedista que o acompanhava desde bebê. Após analise clinica o Dr percebeu a fraqueza muscular e que o João realizava a manobra de Gowers ao levantar-se. Saímos do consultório com encaminhamento para o Neurologista e ali iniciava-se anos de buscas e angustias por um diagnóstico. Foi realizado a eletromiografia onde constatou-se a fraqueza muscular, e vários exames. Mesmo o CPK com resultado normal, os médicos procuravam as doenças degenerativas mais graves, como Duchenne e Becker.

Aos cinco anos foi feito o exame do Painel Genético para as setenta doenças degenerativas musculares e veio o resultado negativo para todas elas. Foi um misto de alegria e angustia, pois não tínhamos fechado o diagnóstico. Aos três anos iniciamos os tratamentos recomendado pelo médico, com fisioterapias, equoterapia e natação. O desenvolvimento após inicio do tratamento foram visíveis, o João passou a ter mais equilíbrio, as quedas diminuíram, começou a subir escadas com apoio e ter mais firmeza para desce-las, a cada dia percebemos o progresso (lento), mais sempre constante na sua condição física.

Este ano (2023), após 7 anos de busca, conseguimos fechar o diagnóstico do João com o Exoma. Com o diagnostico a fisioterapeuta que o acompanha desde o inicio da nossa jornada montou um novo cronograma de exercícios, e adotamos que a “Vida é Movimento” então vamos nos movimentar e continuar escrevendo uma história linda para nosso menino que é cheio de vida e alegria!

 

Recentemente me submeti a uma colonoscopia e endoscopia no Hospital Israelita Albert Einstein, um exame de rotina, mas dado a minha questão com a suscetibilidade a Hipertermia Maligna, os procedimentos foram feitos cercados por forte critérios de segurança, contudo, infelizmente dado ao pouco conhecimento sobre essa doença, esse protocolo de seguranaça é observado em poucas instituições hospitalar.

A Hipertermia Maligna (HM) é uma condição rara e séria, a qual pode ser desencadeada pela administração de certos anestésicos. Os indivíduos com mutação no gene RYR1 têm a suscetibilidade em ter o episódio de HM. O episódio de HM se não atendido no momento certo, com as drogas e procedimentos corretos pode ser fatal. É muito importante destacar que atualmente já existem identificados anestésicos que devem ser evitados, contudo, por ser uma doença pouco conhecida, além de se evitar essas drogas, os cuidados em qualquer procedimento médico envolvendo anestesia, deve ter uma atenção dobrada. A aplicação de anestesia não se restringe a procedimentos cirúrgicos, mas também em entubação, pequenas intervenções em pronto-socorro, dentre outros.

Diante do exposto, se alguém tem suscetibilidade à Hipertermia Maligna, é crucial comunicar isso à equipe médica antes da anestesia. Seguem alguns cuidados a serem considerados:

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